Caminhos de Santiago: desistir a 16 kms do fim

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Caminhos de Santiago – Sant’yoga: 3ª vez
Caminho 2018: Caminho inglês
Percurso: Neda » Santiago de Compostela

Peregrinas:
Liliana Gonçalves
Liliana Santos
Rute Violante

Geralmente andamos sempre as três a 1000/hora na nossa vida quotidiana, cheias de trabalho, compromissos e responsabilidades. Não tivemos muito tempo para planear ou para refletir sobre o “caminho” deste ano. Definimos o trajeto, reservámos algumas dormidas (não todas) e comprámos impermeáveis (ponchos, calças, etc…) por causa da chuva prevista. Estávamos longe de imaginar o que nos esperava…
Tinham-nos dito que este “caminho” (caminho inglês) tinha maior grau de dificuldade mas como já tínhamos feito o caminho português duas vezes, isso também não nos assustou. Como era mais bonito e era diferente, pareceu-nos uma boa opção.
Tínhamos saudades umas das outras, de alegria e de férias. Ingenuamente, achámos que íamos estar de “férias”, cantar, rir e “curtir”.
O início da viagem correu bem. Viajámos de carro até Santiago, deixando-o aí estacionado. Depois caminhámos 3 kms a pé e apanhámos um primeiro autocarro até Ferrol e um segundo até Neda. Dormimos em Neda e arrancámos pela manhã.

O primeiro dia a caminhar foi de 30 kms, o que não é o mais indicado para começar. Claro está que no final do primeiro dia estávamos completamente “quebradas”. A partir daqui perdemos um bocadinho a noção dos dias, das etapas, dos kms, das dormidas e de nós próprias.

CAMINHAR!!! ERA A ÚNICA COISA A FAZER!  Também nos custou particularmente o facto dos marcos de estrada nunca coincidirem com as indicações que tínhamos ou com as indicações que nos davam, perfazendo sempre um total de kms amplamente superior ao suposto (diferenças de 3-4 kms).

Podíamos ter aguentado a dor ciática, as dores de ombros, calcanhares, anca, braços, cabeça e joelhos. Podíamos ter aguentado o peso da mochila (eu vi-me forçada a largar cerca de 2 kgs de carga pelo caminho), podíamos ter aguentado as subidas e descidas e até a chuva a cântaros e o frio abaixo dos 6º de manhã. Podíamos ter aguentado os níveis de humidade de 80% em Presedo. Podíamos ter aguentado a tosse e a constipação… os lenços que se desfaziam em água com a chuva, o impermeável que deixou entrar água e as botas que perderam a impermeabilização. Podíamos ter aguentado o facto de já não conseguirmos comer… mas o que não deu para aguentar foi a febre…
Estávamos a 16 kms do final! Já tínhamos percorrido 116 kms… Uma de nós tinha passado a noite a arder em febre e a delirar e outra ainda com febre e cheia de dores no corpo.  A terceira a cuidar das duas.
Tomámos uma decisão consciente e acima de tudo responsável… desistir!
Todas por uma, uma por todas! Fomos juntas de carro para Santiago de boleia com o dono do Hostel onde pernoitámos.
Já em Santiago e por não querermos (mais) “químicos” procurámos alternativas naturais: kuzu; mel; gengibre; limão; miso. Ficámos em repouso no Albergue de Santiago para recuperação.  Pouco ou nada conseguíamos comer e beber.

Este ano encontrámos pessoas fascinantes pelo caminho que nos acolheram como se fóssemos família. O António que nos foi buscar de carro e nos levou para a sua pensão e nos tratou como princesas. A Alicia e o marido que nos trataram como se fóssemos filhas e que têm o melhor albergue do mundo (vão levar nota máxima no trip advisor): até a comida e alguns produtos de higiene e estética são gratuitos neste albergue… sem preço!
E ainda a Ada que nos deixou ir para o quarto 2 horas antes da hora permitida, que nos aqueceu uma sala para prepararmos sopa de miso, que nos arranjou um medicamento natural e que nos acarinhou tanto como pôde.

Nesta Primavera, descobrimos um outro espírito para os caminhos. Os inquebráveis laços entre nós tornaram-se ainda mais fortes porque viver é saber caminhar em conjunto.

A adversidade ensinou-nos a humildade. A compaixão de que fomos “alvo” ensinou-nos que todos precisamos de ajuda e a vulnerabilidade abriu-nos portas e caminhos!

É preciso viver, é preciso sentir, ganhar, perder, SER, em todas as suas possibilidades. Assim se alcança a profundidade.

“O que se quebrou, volta a ser inteiro; 
o que se curvou, volta a ficar direito; 
o que se esvaziou, torna a encher-se;
o que se desgastou, renova-se;
o que é menos, torna-se mais; 
o muito, torna-se pouco.”
Lao Tzu | Tao Te Ching

Páscoa no hebraico Pessach, no latim Pascae ou no grego Paska significa “passagem” – renovação e esperança de um novo ciclo na vida.

Boa Páscoa!

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