A des’ilusão’ na espiritualidade

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Há uns anos atrás houve alguém que me disse que  quando entramos numa via mais espiritual entramos numa espécie de estado de transe em que parece que tudo é lindo, tudo é metamorfose, tudo é simples, tudo é amor… e até é na verdade (quando a nossa mente deixa de nos boicotar). A questão é que antes de chegarmos à fase em que efetivamente conseguimos ver tudo como algo maravilhoso (até o menos bonito), primeiro temos de libertar carga que nos condiciona o discernimento e a percepção da vida.  Podemos entender carga como karma; medos, ilusões, bloqueios, traumas, desejos, expectativas, competições, comparações, invejas, etc…
Para que isso aconteça, é muito natural que conheçamos pessoas que nos mostram espelhos menos bonitos de nós, que tenhamos desilusões, que nos faltem as forças e a esperança, que nos debatamos com tudo o que nos deita abaixo, que sejamos confrontados com os nossos grandes medos, que enfrentamos uma “dark night of the soul” (noite escura da alma – referente a um período depressivo intenso devido a um episódio traumático), que percamos aquilo que nos parece ser mais precioso e que nos rendamos a tudo isto com humildade e dignidade.
Nesta fase questionamos tudo, inclusive a própria espiritualidade. Questionamos o sentido da vida, a justiça, as nossas escolhas, a nossa sorte, o nosso destino, os nossos amigos, a nossa família, o lugar que ocupamos na vida das pessoas, o status que pensamos ter, a fama que pensamos ter conquistado… e começamos a entender que a vida pode ser mais simples e menos conturbada se começarmos a aceitar as nossas fraquezas, as nossas fragilidades, os nossos medos, o nosso ego, as nossas máscaras, o nosso orgulho, a nossa falta de amor próprio e o nosso fracasso nas várias áreas da nossa vida. Aí sim, a espiritualidade entra em nós, porque depois disso, só nos resta CONFIAR.
Confiar que há um sentido maior que não entendemos, confiar que precisamos de perder para ganhar, que o fracasso faz parte da vitória, que a fama e o dinheiro são uma ilusão sem valor, que o valor mais forte da vida é o amor, que as emoções são pedras preciosas, que o amor maior é o que sentimos por nós próprios e que a nossa capacidade de resiliência é a faísca que nos permite sobreviver e viver de forma transcendente.
Um dia em conversa com uma Xamã amiga, ela disse: Quando uma pessoa está muito mal (angustiada, deprimida, desesperada, sem esperança, atormentada), há um momento em se resgata a faísca que reside “bem no fundo da alma”. Nesse momento, a pessoa sabe que tem forças para sobreviver e superar os obstáculos. Depois de reacender essa faísca (força de vida), nunca mais a perde. (Obrigada Ana pelo ensinamento)
O entendimento de que a nossa consciência projeta a nossa própria vida e de que temos esse poder infinito em nós, a percepção de que o amor e o ódio são a mesma coisa em pólos distintos, a compreensão de que o desejo é dos maiores inimigos do homem… levam-nos à conclusão de que andámos enganados grande parte do tempo e que o próprio tempo fazia parte da “ilusão”.
A espiritualidade entra em nós quando passamos a acreditar em nós como se fossemos feitos de partículas de “Deus”. A espiritualidade entra em nós quando nada nos resta e entramos no desespero de não controlar nada e de nada fazer sentido.
A felicidade simples entra em nós no momento em que num dia de frio e de cansaço extremo alguém nos aquece os pés e nos deixa repousar. A felicidade simples está em beber um copo de água quando estamos sedentos. Quando ficamos vazios de amor externo, somos obrigados a resgatar o amor próprio até ele transbordar e deixarmos de ter interesse em fama, poder, dinheiro e conquistas… inclusive de amor… porque o amor também não se conquista,  é apenas um verbo que nos permite transbordar.

Fotografia: Rute Violante – Projeto Resiliência

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