O (não) líder

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O líder verdadeiro é um NÃO líder, no sentido em que não tem pretensões de ser chefe, comandante, patrão, líder partidário ou mestre de ninguém.
A vida acontece-lhe… os estatutos e a responsabilidade escrevem-lhe o rótulo no coração.
O líder verdadeiro não deseja ser líder. Esse papel é-lhe quase imposto, solicitado e assegurado pela comunidade. A sua eleição não é formal, é um reconhecimento.
Quando alguém lhe tenta conquistar o “lugar”, perde-o reforçando o reconhecimento do verdadeiro líder que nunca lutou por esse “lugar”.

Mesmo tendo o maior de todos os líderes a governá-lo, 
o povo mal sabe que existe um líder. 
A seguir, surge um que amam e elogiam.
Depois vem um que receiam.
Por fim, um a quem desprezam e desafiam.

Quando um líder não confia em ninguém, ninguém confia nele.
(…)
in Tao Te Ching, Lao Tzu (17º verso – excerto)

Lembremo-nos da forma como os Lamas são reconhecidos.
Existe uma tradição budista segundo a qual algumas crianças são colocadas em frente a inúmeros objetos para reconhecerem aqueles que supostamente lhes criam ressonância.
A criança rapidamente escolhe os objetos pertencentes a líderes espirituais de outras encarnações e desta forma, o seu suposto estatuto é reconhecido perante a comunidade.
A ideia base por detrás desta tradição consiste na crença de que a criança escolhe intuitivamente objetos que lhe pertenceram noutras vidas (registos de memória de outras vidas; íman energético dos próprios objetos). Aqui, é essencial termos em consideração que o budismo se apoia no conceito de Samsara, ou seja, num ciclo interminável de encarnações (nascimento, morte e reencarnação).
Este exemplo é simbólico da questão da liderança no sentido em que um líder não deve impor-se mas antes ser reconhecido pela maioria.

Se seguirmos uma linha de pensamento taoísta, o líder tenderá a ter uma presença maioritariamente invisível que de alguma forma é omnipresente e incontestável. A sua pura existência e a sua mestria deixam acontecer e tudo se alinha. O equilíbrio restabelece-se sem esforço porque tudo na natureza segue um curso cíclico não necessitando de intervenção ou de recondução. A liderança é realizada pela não ação (wu wei), deixando que as coisas aconteçam e confiando na capacidade de alinhamento da natureza.
Sob observação, é possível discernir como criar um ambiente que faça com que todas as pessoas possam agir de forma responsável.

Não empreendo uma ação e as pessoas mudam.
Opto pela paz e as pessoas tornam-se honestas.
Nada faço e as pessoas enriquecem. 
Se eu deixar de me impor ao povo, 
as pessoas serão elas próprias.
in Tao Te Ching, Lao Tzu (excerto – 57º verso)

O líder pode liderar pela experiência, conhecendo “a priori” os resultados positivos e negativos que algumas ações tomadas pelos elementos do grupo podem ter. Tantos os resultados positivos como os resultados menos positivos farão crescer e terão um sentido evolutivo. Por isso, a intervenção será dispensável.

O grande líder fala pouco.
Nunca fala sem pensar.
Trabalha sem cuidar dos seus próprios interesses
e não deixa vestígios.
Quando tudo fica concluído, o povo diz:
«Fomos nós que o fizemos».
in Tao Te Ching, Lao Tzu (17º verso – excerto)

O líder deve dar o exemplo. Sempre.
O líder não precisa de ser nomeado líder. Em virtude da sua segurança e do manifesto equilíbrio, são-lhe pedidos conselhos e apoio.
O líder sabe que todos temos potencial divino e eleva os elementos do grupo, ajudando-os a crescer.
O líder mantém fronteiras firmes face ao seu espaço pessoal, de forma a não se deixar atingir ou desequilibrar.
O líder sabe que juntos somos mais fortes e quando alguém se julga fraco, enaltece-o. Ao reforçar positivamente o valor de um elemento, fará com que o mesmo se torne colaborativo.
O líder não tem medo e confia no processo da vida, ajudando a atenuar os medos dos frágeis.
O líder permite que os outros fiquem com os louros do seu trabalho porque não necessita deles.
O líder cultiva o espírito de equipa e valoriza as qualidades de cada um, entendendo e sentindo compaixão pelas fraquezas alheias. Reconhece as suas e sente compaixão por si próprio.
O líder não humilha, não menospreza e não critica.
O líder sendo um “opinion maker” (gerador de opiniões) não incentiva o bullying, a crítica e a ostracização de nenhum elemento da equipa.
O líder preocupa-se tanto com os outros como consigo próprio.
O líder toma conta de si para estar bem e conseguir ajudar os outros a equilibrarem-se.
O líder ama até mesmo os seus “filhos” mais competitivos, mais egoístas ou menos bondosos, tentando ensiná-los a amar (aos outros e a si próprios).
O líder não cresce sozinho, cresce em conjunto, em relação.
O líder não age em próprio benefício mas em prol do grupo ou da Humanidade.
O líder não conhece o egoísmo, apenas o amor próprio.
O líder conhece e honra a sua responsabilidade no crescimento das pessoas à sua volta.
O líder nunca compete com os elementos do grupo.
O líder nunca se coloca no papel de protagonista.
O líder sacrifica-se em prol do bem-estar comum.
O líder protege e acolhe.
O líder cuida, mesmo que à distância.
O líder nunca é líder de nada se não tem pessoas para liderar nem equipas para alinhar.
Nenhum líder é líder sozinho.
Todo o verdadeiro líder é humilde.

O líder mantém-se no fim da “matilha” porque lhe interessa mais saber se todos conseguiram trilhar o caminho sem dificuldades do que chegar à meta em primeiro lugar.

Ilustração: Manel Cruz

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